quarta-feira, 6 de abril de 2016

O CRISTIANISMO NO BERÇO DA FILOSOFIA: PAULO DISCURSA NO AREÓPAGO CONFRONTANDO EPICUREUS E ESTÓICOS.








O CRISTIANISMO NO BERÇO DA FILOSOFIA: PAULO DISCURSA NO AREÓPAGO CONFRONTANDO EPICUREUS E ESTÓICOS.
Jonas Dias de Souza[1]
               
                O povo Grego estava acostumado a intensos debates em praça pública. Não era incomum que as idéias fossem debatidas entre os que se encontravam na rua, isto aliado à intensa curiosidade que o grego possuía para as novidades e a abertura para novas formas de pensar, permitiu a Paulo um terreno fértil para a pregação do evangelho.  Abordamos este assunto no artigo Sobre a plenitude dos tempos.
Sabemos que Paulo enfrentou duas correntes do pensamento clássico grego: o Estoicismo e o Epicurismo.  “E alguns dos filósofos epicureus e estóicos contendia, com ele.” (Atos 17.18).  Eram duas correntes muito em voga na Grécia, embora distintas.  Chega então Paulo, mostrando  um caminho diferente, uma nova perspectiva de ver o mundo partindo dos ensinamentos de Jesus de Nazaré.  A bíblia não traz na íntegra o discurso de Paulo, sabemos que não se resumiu a poucas palavras por causa da estrutura do discurso grego.  E considerando que Lucas foi o historiador, é provável que tenha colocado uma síntese das palavras Paulinas em Atos.
O discurso filosófico possui uma estrutura que em linhas gerais segue ou possui os seguintes componentes
ou roteiro:
1)      Tese ou Proposição: Momento em que a idéia fundamental é defendida pelo autor de um escrito ou por quem está discursando. Coloca o ponto de vista em pauta para a discussão.
2)      Argumentos: Nesta hora o argumento deve ser eficiente, pois a argumentação é que garante a aceitação da idéia apresentada.
3)      Premissas:  Se dá pela sustentação dos argumentos (razões) que dá sustentação a conclusão. As razões sustentam os argumentos e fornecem a base para a conclusão.
4)      Conclusão: É a alegação final que fecha o discurso.
Em suma: o que dizer? Para quem dizer? Como dizer? Sabemos pela leitura bíblica que os outros apóstolos não encontrariam (baseando se na cultura e não na capacitação pelo Espírito Santo) a facilidade que a erudição Paulina encontrou para sustentar vários discursos entre os filósofos gregos. “De sorte que disputava na sinagoga com os judeus e religiosos e, todos os dias na praça, com os que se apresentavam”. (Atos 17.17).  Tentemos imaginar cerca de Noventa dias de debates diários que Paulo se envolveu. Podemos inferir o dobro de discurso se atentarmos que Paulo discursava (debatia) em dois ambientes distintos, na sinagoga e nas ruas, até que foi levado para o Aréopago. Não sabemos se foi mais um julgamento, pois ao Aréopago cabia a fiscalização de novas religiões.  Não sabemos se os três meses que Paulo permaneceu na Grécia (Atos 20.3) foram somente em Atenas. O fato é que tendo chamado a atenção dos gregos, foi conduzido ao lugar mais importante para os filósofos: “E, tomando-o, o  levaram ao Aréopago, dizendo: Poderemos nós saber que nova doutrina é essa de que falas?” (Atos 17.19)
            Paulo vê oportunidade para pregar sobre Jesus Crucificado e sobre a Ressurreição diante do mais importante tribunal de Atenas. O que nós crentes atuais devemos aprender, pregar a Cristo crucificado nos meios importantes, assim como Paulo se encontrou neste tribunal que a história tem em alta conta diante da importância que  exercia para o povo grego. Ocorre que o mesmo tribunal não aceitava de forma passiva os discursos, as intervenções ocorriam e era necessário uma defesa argumentativa forte para que tudo transcorresse normalmente.  Podemos ter um vislumbre da desvantagem de Paulo diante dos debatedores, por ser considerado “um paroleiro”, sabemos de traduções que trazem “catador de grãos”. “Uns diziam: Que quer dizer este paroleiro? (Atos 17.18) . O paroleiro é o que conhecemos por tagarela.  
Tagarela, spermologos; strong 4961: Gíria ateniense para: 1)  Um pássaro que cata sementes; 2) homens que vivem ao redor do mercado, ganhando a vida com o que cai dos carregamentos de mercadorias; 3) um tagarela, falador ou alguém que espalha fofocas distorcendo as informações; 4) um pseudointelectual que insiste em falar pomposamente. Infelizmente os superintelectuais no Aréopago não foram capazes de enxergar em Paulo todos os ingredientes necessários para ser um mensageiro da verdade.” (Bíblia de Estudo Plenitude, p. 1216)

           

            Se levarmos em conta que o significado de Filosofia é “amigo da sabedoria”, deixar um paroleiro falar, seria uma mera questão de educação para com um estrangeiro. Mas a curiosidade grega ou até mesmo a necessidade de verificar se esta nova religião estava conforme as regras do estado precisava ser verificada.  Ao atentarmos para o fato de que a doutrina epicurista tinha o filósofo em total autonomia, chegando ao ponto de negar a morte, apresentar um Cristo que morreu objetivamente para salvar o mundo e ainda ressuscitou após três dias, era algo que devia ser feito com erudição. A respeito da autonomia do filósofo epicurista, Gianfranco Morra, escreveu:
“ Os epicuristas elevam a tal ponto a autonomia do filósofo, que chegam a negar a existência da morte. O raciocínio é o seguinte: “Quando existimos, a morte não existe; quando há a morte, nós não existimos”. A própria dor, por outro lado por outro, lado não deve causar preocupação e também diante disso o filósofo é autônomo. A dor ou é leve ou intensa: se não é intensa, pode ser facilmente suportada e nos habituamos a isso; se é forte, não pode durar longamente: ou ela passa, ou passamos nós. Em todo caso o filósofo é feliz em sua autonomia.”  (Morra, 2001)
Paulo apresentava em contraponto à autonomia epicurista a dependência a Cristo. Se dermos um salto no tempo, vemos ainda hoje as pessoas tateando em busca de um “Deus Desconhecido”, “felizes” em sua autonomia, ao passo que podiam estar felizes de fato nos braços do Pastor que nos foi dado.  O pensamento grego, considerava a ideia de ressurreição, totalmente contrária a ideia de morte como “libertação da alma da prisão do corpo.” O epicurista ao aceitar tudo que  ocorre na vida como destino inevitável, é apresentado ao Deus que pode mudar, moldar vidas. Este Cristo deve ser apresentado hoje, um Cristo que transforma as vidas ruins em boas.  Lamentavelmente, temos falhado em apresentar (num contexto geral) este Cristo que transforma a amoralidade em moralidade, através da salvação.  Temos visto igrejas colocando fardos pesados, em formas de condutas éticas e morais, quando em verdade, ao permitir que Cristo haja no meio, a pauta será a verdadeira ética cristã. Podemos inferir que os filósofos epicuristas ficaram chocados.

Assim como epicuristas, os estoicistas também foram confrontados, ainda na esteira de Morra, vemos a respeito dos estóicos:

“A afirmação mais rigorosa da autonomia da filosofia foi feita pela escola estóica. A base dessa abordagem de absoluta auto-suficiência é o reconhecimento da total necessidade e racionalidade de tudo quanto acontece. A concepção estóica é substancialmente panteísta: Deus e o mundo são idênticos. Tudo aquilo que ocorre é querido por Deus, antes, é Deus mesmo.” (Morra, 2001)
Encontraremos uma série de contrapontos no Novo Testamento, mas devemos lembrar que naquela época não havia o que conhecemos hoje por Novo Testamento, então o discurso de Paulo era baseado em suas experiências pessoais.  Acredita-se que o fundador do estoicismo (Zenão de Cício) começou sua escola por volta de 300 a.C
Para o crente deste século XXI, a importância em conhecer tais formas de pensamentos filosóficos reside no fato de que, estoicismo, aristotelismo e epicurismo, exercem ainda uma profunda influência  em nossa forma moderna de pensar ocidental. O estoicismo é o influenciador da semiótica moderna.  Qual é estudo que devemos fazer hoje?  São justamente os fatos da vida social e sua confrontação com o Cristianismo. Atualmente, em tempos de internete e comunicação de massa, ritos e costumes, mitos, se confundem com a Doutrina Cristã autêntica. Precisamos de pregadores que (sustentados pelo Espírito Santo) se disponha a estudar e entender este fenômeno de uma igreja formada por estudantes (ou pessoas formadas) em escolas que ensinam as correntes de pensamento grego embutidas em diversas disciplinas. O objetivo não é para fazermos guerra, mas é para que assim como Paulo, conhecer os nossos interlocutores.
            “Então, Paulo, levantando-se no meio do Aréopago, disse: Senhores Atenienses! Em tudo vos vejo acentuadamente religiosos; (...)” (Atos 17.22).  Algumas traduções trazem “supersticiosos”, o que reforça o caráter do grego em sua busca por algo que estava sempre além do homem.  Recorrendo à Bíblia de Estudos Palavras-Chave, aprendemos que a vertente grega do vocábulo, é entendida como “deisidaimonesteros”  ou mais religiosos que os outros. Os gregos possuíam um temor aos deuses, e reconheciam este temor erigindo um altar ao “deus desconhecido” como forma agradar algum que porventura não tivessem conhecimento da existência. Vemos que Paulo não deixou se encantar pelas arte grega, mas preocupou-se em não perder o foco da evangelização.
            Quando lemos a história da filosofia dissociada da história do cristianismo, percebemos que a filosofia estoicista é de certa forma aceitável. Mas quando a confrontamos com a Palavra de Deus, percebemos que esta filosofia é uma tentação ao espírito.  “O estóico esquece dos limites da criatura: o seu panteísmo não lhe permite reconhecer a diferença ontológica entre homem e Deus, de modo que é atribuída ao homem a capacidade de redenção.” (Morra, 2001)
A grandeza do homem é exaltada pela filosofia estoicista, que não leva em conta a miserabilidade humana. Recorrendo a Paulo em sua Carta aos Romanos, vemos “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte” (Romanos 7.24) .  A miséria humana do estóico e autonomia humana do epicureu, é assumida conjuntamente pelo entendimento do desastre que o pecado original provocou na humanidade. Trazemos a miséria do primeiro Adão enraizada na alma, e recebemos a grandeza do segundo Adão (Cristo) através da morte sacrificial realizada na cruz do calvário. Contudo, ao contrário de epicureus e estóicos, abrimos mão da escravatura obrigada da servidão filosófica, para nos tornarmos escravos voluntários (doulos) da Graça herdada através de Jesus Cristo.  Enquanto a filosofia estóica permite ao homem o suicídio em casos de doença incurável e perda da liberdade, a Graça redentora permite somente a Deus (que é o autor da vida) tomá-la para si. Se o estóico não suporta a doença incurável e nem a perda da liberdade, podemos  dizer que a sua autonomia é uma falácia, que em verdade não existe. Nesta linha de raciocínio, o Cristão escudado no Senhor Jesus, tem mais autonomia do que o estóico. A experiência da igreja é rica em perseguições que foram suportadas em Cristo, por exemplo o próprio Paulo, e também Silas, e muitos outros.  O que dizer então da experiência Paulina? “"E para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte. Por causa disto, três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo.” (2 Coríntios 12.7-9) Não iremos especular sobre o que é isto.   Podemos imaginar que um estóico talvez cometeria o suicídio por causa disto.
            A filosofia tateia em busca de Deus, sem saber que ele já se revelou. Paulo mostra em seu discurso que Deus pode sim ser encontrado, e ainda que, se somos semelhança dele, como o comparamos às divindades esculpidas em ouro, prata e pedra conforme a imaginação humana.  O Espírito Santo queria Paulo para falar aos gregos e assim o conduziu.  Mas o mesmo Paulo erudito, era capaz de falar de forma simples às pessoas simples.  O que Paulo expressou aos gregos, “para que buscassem ao Senhor, se, porventura, tatenado, o pudessem achar, ainda que não está longe de nós;” (Atos 17.27), também expressou em Listra, mas em palavras mais simples, quando quiseram adorá-lo, confundindo-o com Mercúrio. (Confiram Atos 14.15-17)
            A nossa realidade não é diferente (em termos de cultura) da realidade de Paulo.  Nesta sociedade hodierna, encontramos uma série de filosofias que buscam a Deus tateando aqui e acolá, por isto é essencial pregações Cristocêntricas e menos teológicas. Erudição para os eruditos e simplicidade para os simples.
            Alguém poderá até argumentar que esta pregação não foi um sucesso, pois houve poucas conversões, além de ser assunto para outro texto, respondemos que cada alma é preciosa aos olhos de Deus.

 BIBLIOGRAFIA
Abbagnano Nicola Dicionário de Filosofia [Livro] / trad. Bosi Alfredo. - São Paulo : Martins Fontes, 2000. - 4ª edição : Vol. Único : p. 1014.
Bíblia de Estudo Plenitude. [Livro].
CPAD Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal [Livro]. - São Paulo : [s.n.], 2004.
CPAD Bíblia de Estudo Palavras-Chave Hebraico e Grego [Livro]. - Rio de Janeiro/RJ : CPAD, 2011.
Morra Gianfranco Filosofia Para todos [Livro] / trad. Marsola Maurício Pagoto. - São Paulo : Paulus, 2001. - 2ª : Vol. único : p. 145. - 85-349-1694-2.

           



[1]  Servo de Deus. Congrega na Assembleia de Deus Missões na cidade de São João del-Rei/MG. Graduado em Filosofia pela UFSJ. Estudante de Teologia da EETAD.

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