quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Bíblia Católica X Bíblia Protestante




Bíblia Católica X Bíblia Protestante
Jonas Dias de Souza[1]
É muito comum presenciarmos disputas sobre tal ou tal Bíblia. Com ardor uns defendem a Bíblia Católica, outros apaixonadamente defendem a Bíblia protestante.  Fato é que na grande maioria das vezes nem uma e nem outra tem a leitura que deveria.  Desde minha adolescência escuto uma brincadeira, que ilustra bem o fato de que as Bíblias não têm a leitura que merecem. Trata-se de uma pergunta sobre qual a diferença da Bíblia católica e a Bíblia Protestante. A resposta em tom de jocosidade é que uma cheira a mofo e outra cheira a “cêcê” ou suor, numa alusão de que bíblias católicas enfeitam estantes e escrivaninhas e bíblias protestantes enfeitam sovacos. O humor por vezes tem um fundo de verdade, e a pilhéria serve para alertar sobre situações sérias de uma forma sutil.  Seria esta uma disputa necessária?
Fará diferença esta discussão que toma energia, tempo e na maioria se limita a um falatório. O que afirmamos é que a energia consumida na defesa, muitas vezes é desprovida de uma análise que leve em conta as doutrinas existentes nos chamados Livros Apócrifos e em traduções livres.
O Novo Testamento é idêntico em ambas as publicações no que concerne ao número de livros. O Antigo Testamento possui na publicação católica alguns livros a mais.  A Bíblia impressa e destinada ao público católico possui  73 livros, ao passo que a destinada ao público protestante possui 66 livros. Acrescente-se a esta diferença os aditamentos em alguns livros da publicação católica.  Para entender esta controvérsia é importante entendermos o que é um Concílio. O vocábulo assume o significado principal de tribunal. Confiram Marcos 13.9 na Almeida Revista e Corrigida (ARC).
“Os chamados livros apócrifos
 foram acrescentados à Bíblia pela Igreja Católica em 8 de abril de 1546 no Concílio de Trento (1545-1563). Trata-se do livro de Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Barucque, A Epístola de Jeremias, 1 e 2 Macabeus e acréscimos feitos a Ester e a Daniel.”[2]
Segundo o Dicionário da Bíblia de Almeida:
Apócrifos: Livros que o Concílio de Trento, em 1546, declarou inspirados, embora não fizessem parte do Cânon do AT estabelecidos pelos judeus da Palestina. Os católicos chamam esses livros de “deuterocanônicos’, isto é, pertencente ao “segundo cânon”. “Protocanônicos” (pertencentes ao primeiro cânon) são os livros do AT que os judeus da Palestina consideravam inspirados, e esses são aceitos tanto pelos católicos como pelos evangélicos. Os livros apócrifos aceitos pelos católicos são os seguintes: Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico ou Sirácida, Baruque, Epístola de Jeremias, Primeiro e Segundo Macabeus e os acréscimos a Ester (Ester Grego) e a Daniel (A oração de Azarias, A canção das três Jovens e as histórias de Suzana e de Bel e do Dragão). Além desses existem outros livros que não são considerados inspirados, os quais os evangélicos chamam de psuedoepígrafos, e os católicos de “apócrifos”. (Zimmer)




O principio de que a Bíblia não contradiz a si mesma é fundamental para que entendamos o motivo pelo qual os Teólogos Evangélicos tem se posicionado de forma a refutar os livros deuterocanônicos.
Bem verdade que existem trechos edificantes nos deuterocanônicos, contudo, eles devem ser lidos com muito cuidado, posto que haja trechos que apóiem doutrinas com as quais os evangélicos não concordam. Reside nisto o perigo de se estudar textos bíblicos isolados, fora de contexto, seja o contexto imediato ou contexto remoto. Quando lemos “Ainda que morra prematuramente, o justo encontrará repouso.” (Sabedoria 4.7) É possível encontrarmos uma base neotestamentária (o juízo pessoal após a morte). “E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso, o juízo” (Hebreus 9.27)
Existem passagens que trazem ensino diverso da doutrina neotestamentária, “Quando você e Sara rezavam, era eu quem apresentava o memorial da súplica de vocês diante do Senhor Glorioso. A mesma coisa eu fazia quando você sepultava os mortos.” (Tobias 12.12) Estas palavras foram ditas a Tobias pelo anjo Rafael, que ainda completa “Eu sou Rafael, um dos sete anjos que estão sempre prontos para entrar na presença do Senhor glorioso”. (Tobias 12.15).  Em suas Instruções para a Igreja na Primeira Carta a Timóteo. O apóstolo Paulo, ensinou que: “Porque há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem.” (1 Timóteo 2.5) A única ponte de acesso, o único intermediário ou mediador entre Deus e o homem é Jesus cristo. Sei que serão construídos argumentos que dirão que a passagem de Tobias está no AT, mas não nos esqueçamos que o Romanismo encontra nos livros Deuterocanônicos um forte apoio para sua crença. A oração dos santos não é apresentada a Deus por sete anjos.
            Lembremos que em sua Carta aos Cristãos de Colossos, o apóstolo Paulo, com vistas a prevenir a atuação dos falsos mestres naquela igreja ensinou: “Ninguém vos domine a seu bel-prazer, com pretexto de humildade e culto aos anjos, metendo-se em coisas que não viu; estando debalde inchado na sua carnal compreensão, e não ligado à cabeça, da qual todo o corpo, provido e organizado pelas juntas e ligaduras, vai crescendo em aumento de Deus.” (Colossenses 2.18-19). Para o argumento de que a passagem de Tobias está no AT, e que não poderia ser confrontada com os ensinamentos de Paulo que é neotestamentário, lembramos o que a Bíblia, (quer na versão católica ou protestante), ensina no Antigo Testamento que não devemos prestar culto aos anjos.
“Não terás outros deuses diante de mim.”
“Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.” (Êxodo 20.3-4) (ARC)
Na Bíblia Edição Pastoral (destinada ao Público Católico) da Editora Paullus:
“Não tenha outros deuses diante de mim”.
Não faça para você ídolos, nenhuma representação daquilo que existe no céu e na terra, ou nas águas que estão debaixo da terra.” (Êxodo 20.3-4)
Encontramos ainda doutrinas espúrias a respeito da intercessão dos mortos pelos vivos, numa flagrante contradição: “Tendo armado cada um de seus soldados, não tanto com a segurança oferecida pelos escudos e lanças, mas principalmente com a força das boas palavras, Judas, ainda lhes contou um sonho digno de fé, uma espécie de visão, que muito os alegrou. No sonho, ele viu o seguinte: Onias, o antigo sumo sacerdote, homem correto e bom, respeitoso no encontro com as pessoas, manso no comportamento, precavido e delicado no falar, e bem-educado desde criança em todo o seu comportamento virtuoso, esse homem de mãos erguidas, rezava em favor de toda a comunidade judaica. Da mesma forma, apareceu outra personagem extraordinária pela sua velhice e dignidade, envolta num clarão de majestade maravilhosa. Então Onias disse: “Este é o amigo dos seus irmãos, que está sempre rezando muito pelo povo e pela cidade santa. É Jeremias, o profeta de Deus.” (2 Macabeus 15.11-14) Os mortos não intercedem pelos vivos e nem tampouco se comunicam. Aceitar que um morto (mesmo sendo profeta) se comunicou e está intercedendo pelos vivos é ir de encontro ao que a bíblia ensina a respeito deste assunto.
Existe uma passagem no livro de Sabedoria que confronta o conceito da Justificação. A justificação segundo alguns estudiosos da Bíblia é o ato de Deus como e enquanto Juiz que, por intermédio de sua graça  dá o perdão aos seres humanos pelo pecado. A base para este perdão está no sacrifício realizado no calvário por Jesus Cristo que cumpriu a lei no lugar dos homens e sofreu o castigo no lugar da humanidade. A justificação é alcançada pela Fé dada por Deus por intermédio do Espírito Santo, que convence da justiça, do pecado e do juízo. Outro conceito de justificação é a aliança realizada por Deus baseada na Fé em Cristo Jesus, que nos coloca numa relação correta com Deus. O Espírito Santo é que mantém a justificação. Estes ensinamentos podem ser encontrados  ao longo das Cartas aos Romanos.  A doutrina da justificação é contrariada pela passagem do livro de Eclesiástico que diz “Eu era um rapaz cheio de boas qualidades; eu tinha recebido uma alma excelente, ou melhor eu era bom e entrei num corpo perfeito.” (Sabedoria 8.19-20)  Justo não é quem recebeu uma alma boa, mas quem aceitou a Cristo como legítimo e suficiente e único salvador. Confrontemos com o ensinamento de Paulo “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus.” (Romanos 3. 23-24)


Romanos possuem alguns conceitos importantes: Eleição, Justificação, Propiciação, Redenção, Santificação e Glorificação. São todos conceitos que não colocam nas obras o motivo da salvação, contudo, nos livros de Tobias e Eclesiástico as boas obras são expiadoras de atos maus “A esmola livra da morte e purifica de todo pecado. Os que dão esmola terão longa vida, mas os que cometem o pecado e a injustiça são inimigos da própria vida” (Tobias 12. 9-10).  A expiação dos pecados tem seu acontecimento no arrependimento e na confissão dos pecados, seguido de reconciliação com Deus e não são as boas obras, a esmola e o proceder correto que a propicia, mas através do sacrifício de uma vítima inocente. Dentro do AT temos vários tipos de Cristo, que foi a vítima inocente que propiciou a expiação do homem (de uma vez por todas) através de sua morte na cruz. Colocar a purificação dos pecados como conseqüência das esmolas e obras é invalidar o sacrifício vicário. Pratica-se a boa obra porque está salvo e não para ser salvo. Confiram Hebreus 9.
Encontramos uma heresia que é a oração pelos pecados dos mortos, cuja base pode ser lida no livro de 2 Macabeus: “Então encontraram debaixo da túnica de cada morto objetos consagrados aos ídolos de Jâmnia, que a lei proíbe aos judeus. Ficou assim claro para todos o motivo pelo qual haviam morrido. Todos pois glorificaram a conduta do Senhor, justo juiz, que manifesta as coisas ocultas, e puseram-se em oração, implorando que o pecado cometido fosse completamente cancelado. E o nobre Judas exortou sua gente a se conservar sem pecado. Depois, feita uma coleta de um tanto por pessoa, ajuntou cerca de duas mil dracmas de prata, que enviou a Jerusalém, para mandar oferecer um sacrifício pelo pecado, e realizou assim uma ação muito boa e nobre, pensando na ressurreição; com efeito, se não esperasse que os mortos ressuscitariam, teria sido coisa supérflua e vã rezar pelos defuntos. Mas se ele pensava na magnífica recompensa que está reservada àqueles que adormecem com sentimentos de piedade, seu pensamento foi santo e piedoso. Por isso, mandou oferecer o sacrifício de expiação pelos mortos, para que fossem absolvidos de seu pecado.” (2 Macabeus 12.40-45) Eis aí a base para o romanismo dizer que os que morrem na graça de Deus podem ser libertados de pecados não expiados. Esta é a base da doutrina católica sobre o purgatório e sobre o sufrágio pelas almas dos mortos. 
            Uma conclusão sobre a leitura ou não de tais livros cabe a cada leitor. Não podemos ser dogmáticos extremistas a ponto de proibi-los ou modernos demais para adotá-los em nossas liturgias, até mesmo porque se assim o fizermos, estaremos abrindo caminho para heresias. Toda leitura deve vir antecedida e seguida de oração para que o esclarecimento se dê pelo Espírito Santo. Obviamente este estudo poderia ser mais profundo, mas esta plataforma não é mais adequada. Concitamos aos leitores que procurem se aprofundar e conhecer melhor as várias bíblias existentes no mercado. É fundamental escudar-se nos dois pilares da vida Cristã que são a Oração e a Palavra. A freqüência aos cultos de ensino e a Escola Bíblica Dominical também é fundamental para o crescimento espiritual. Por fim resta concitar a uma melhoria ao hábito de leitura. A facilidade de hoje permite encontrar bons livros e mais baratos que outrora, “leia a bíblia e ore todo dia e vais crescer” diz a letra de um corinho. Se for a vontade de Deus, continuaremos este assunto numa outra oportunidade.

Graça e Paz.


BIBLIOGRAFIA
Bíblia Sagrada de Aparecida [Livro]. - São Paulo : Santuário, 2010.
Bíblia Sagrada Nova Tradução na Linguagem de Hoje [Livro]. - São Paulo : Paullus, 2003.
Concordância Bíblica Abreviada [Livro]. - São paulo : Vida, 2006.
CPAD Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal [Livro]. - São Paulo : [s.n.], 2004.
CPAD Bíblia de Estudo Palavras-Chave Hebraico e Grego [Livro]. - Rio de Janeiro/RJ : CPAD, 2011.
Zimmer Werner Kaschel e Rudi Dicionário da Bíblia de Almeida [Livro]. - [s.l.] : SBB.











[1] Servo de Deus. Congrega na Assembleia de Deus Missões na cidade de São João del-Rei/MG. Graduado em Filosofia pela UFSJ. Estudante de Teologia da EETAD.

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