domingo, 13 de dezembro de 2015

A INEVITABILIDADE DA TEOLOGIA.





A INEVITABILIDADE DA TEOLOGIA.
Jonas Dias de Souza[1]
O que é ser cristão?
Esta reflexão necessária e inevitável precisa ganhar espaço entre a comunidade cristã. Uns dirão que é ser crente, e outros que é ser seguidor de cristo. E se ambos estão corretos em sua maneira de responder, podemos a exemplo da maiêutica socrática, ir colocando uma série de “por que e porque” até não conseguirmos mais responder com a nossa inteligência. Desta parte em diante temos que partir da Fé para continuarmos a acreditar.  Parodiando Santo Agostinho, diríamos que cremos para entender e entendemos para crer. Ouso afirmar contudo, que falta a segunda parte da sentença, ou até mesmo que, diante do quadro grave de deturpação das Boas Novas, a segunda parte é impraticável.  Se cremos para entender, cremos em uma notícia velha e gasta, propagada nos púlpitos de forma a enriquecer o pregador e espoliar as ovelhas já tão doentes. Se entendemos para crer, não há entendimento, sobre as Boas Novas, pois esta não é pregada. Parece um círculo infinito do qual não há saída. Mas somente parece. Existe uma saída que é resumida em Oração e Palavra. A oração cuida da parte do crer e a Palavra da parte do entender.
Isto por si só resolveria a proposta de uma discussão sobre a inevitabilidade da teologia.  O cerne do problema do cristianismo no presente século não se resume tanto a
questão de fé. Fé tem demais. Só que uma Fé na Fé. Presenciamos uma grande denominação que alardeia  “Eu sou a Universal”. As pessoas alegres e bem sucedidas que manifestaram a Fé na Fé  e com seus carrões e empresas, levam outras pessoas a agregarem-se ao “cristianismo” denominacional com a esperança de que também serão sorridentes e felizes com carrões e piscinas e sem problemas.  Não tenho visto muita menção á figura salvadora de Cristo nas pregações televisivas. Esta ausência de Cristo nos sermões é um problema a ser resolvido com urgência urgentíssima. O Cristocentrismo decorre de uma base teológica sólida adquirida do estudo de uma ramo teológico chamado Cristologia. Por sua vez esta crença que adquire mais importância do que o alvo da crença (Fé na Fé) afasta dos sermões algo que a teologia denomina de soteriologia ou o estudo da salvação.
Salvação é aliás, o alicerce de toda pregação Cristocêntrica e bíblica. Se há algo em comum que une a história do cristianismo é a Salvação. O fato de não encaramos a doutrina cristã como uma história no sentido acadêmico e no sentido laico da palavra é que afasta a possibilidade da teologia. Na tecitura da História temos uma série de pequenas histórias ou seja histórias gera História.  Esta falta de conhecimento da História Cristã que é repleta de tramas engendradas, debates filosóficos, sucessos e insucessos pessoais, idéias fascinantes, pessoas geniais  ou nem tanto, resumindo em tramas complexas é prejudicial. Exemplo disto são pessoas que se escandalizam quando em uma pregação numa Igreja Evangélica, fazemos menção à Santo Agostinho ou São Tomás de Aquino. A ausência da soteriologia no alicerce dos pregadores modernos é que tem permitido a instalação de doutrinas não ortodoxas e desviantes, resultando numa mortandade espiritual das ovelhas.
Vejamos o caso da propaganda denominacional acima citada. Cristo não disse que seríamos bem sucedidos materialmente ao nos tornarmos Cristãos. A venda desta imagem é enganosa. E leva àquelas pessoas que continuam no insucesso material a uma falsa crença de que continuam em pecado.  Na Bíblia Sagrada (que poucos lêem) encontramos o ensinamento de que Cristo venceu o mundo e nós também venceremos. O contexto de João capítulo 16, que fala da missão do consolador, mostra que quando aceitamos a salvação e nos entregamos a Cristo, o mundo se levanta conta nós. Não que o crente não possa ser rico. Não afirmamos isto, dizemos que as forças espirituais do mundo mau se lança contra o crente para o derrubar espiritualmente. Neste contexto, a riqueza espiritual e a salvação são bens maiores do que o dinheiro. Mas esta afirmação em rede televisiva não encheria as naves dos grandes templos denominacionais. Se o povo não quisesse ouvir os ventos de doutrinas propagados por estas igrejas, não haveria terreno para tais joios. Isto explica o fato de que ultimamente temos vistos cultos em igrejas ditas evangélicas que são semelhantes aos cultos das religiões com raízes africanas.



Roger Olson afirma em “História da Teologia Cristã”: “ A história da teologia Cristã, portanto, é a história da reflexão cristã sobre a salvação.” Esta reflexão inadiável sobre a Salvação envolve outros ramos indissociáveis da Teologia: Natureza de Deus, Cristologia, Eclesiologia, Heresiologia.  Contudo, o resumo da Teologia é a Salvação. Não há como extrair da Teologia Cristã, o estudo da Salvação. Esta cirurgia da Salvação, extraindo-a dos ramos da Teologia, transforma a teologia em qualquer outra coisa, menos em Estudo de Deus. Deus revela-se nas páginas da Bíblia Sagrada e permite aos homens utilizar a hermenêutica (obviamente guiada pelo Espírito Santo) para facilitar o entendimento. Lembram-se do entender para crer? O que faz a Teologia ser enfadonha, é a mesma coisa que faz a Filosofia, o Direito ou a Pedagogia ser enfadonhos. Não estamos acostumados a ler e a estudar. Inventamos desculpas... Ingerimos uma cultura enlatada através dos programas de televisão e das mídias sociais, inclusos aí os programas ditos evangélicos, que nas madrugadas (do preço barato) fisgam os assistentes insones e preocupados com imagens bonitas de carros, mansões, com fundo musical de músicas seculares e prometem um Evangelho Sem cruz. Prometem um Evangelho sem lutas. Vivemos numa preguiça intelectual. Tudo bem que houve nos primórdios discussões sobre “quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete”, mas ainda hoje há discussões desta natureza.
 Qual o desafio que a modernidade coloca hoje para a Teologia?
Não existe doutrina cristã surgida do nada. As doutrinas sejam ortodoxas ou heréticas, surgem da necessidade humana de resposta para uma questão prática. A questão que nunca deixou de existir é a da necessidade humana de salvação. Entender a urgência de se pregar constantemente nos púlpitos, a salvação mediada por Cristo é a premente necessidade desta era moderna. Uma era de informações rápidas permite às heresias circularem rapidamente.  A ausência de um estudo sistemático das escrituras e o seu estudo fragmentado proporciona ferramentas para uma dominação mental sobre as ovelhas (membros das igrejas), some a isto a proliferação de pastores sem cultura teológica. Vivemos uma era de desculpas para não nos debruçarmos sobre a Bíblia, sobre a história da igreja, sobre a história do cristianismo. Vivemos uma era de imediatismo, esta necessidade imediata do TER em detrimento do SER, faz com que surja uma doutrina ou várias de “determinismo”. Jesus foi transformado num garoto de recado e Deus é visto como um pai que deve atender aos caprichos da humanidade. Pede-se e pede-se sem responsabilidade.  Acostumamos a pedir e a pedir sem levar em conta a vontade de Deus. Grosso modo a oração que Cristo nos ensinou e que conhecemos por “Pai nosso” foi substituída. O Teocentrismo do “seja feita a tua vontade” cedeu lugar ao Antropocentrismo do “seja feita a minha vontade”. A questão prática e urgente que se coloca é justamente a continuação da oração. O “assim na terra como no céu”, teve extirpado o céu e grassando a vontade humana, excluiu a salvação do alicerce.  Pregador que prega a salvação está destinado ao limbo, que na atual visão mercantilista do Evangelho é conhecida como uma congregação nos confins do mundo. Não ironicamente, a Bíblia, diz que seríamos testemunhas nestes confins do mundo.
Exemplo deste ensino fragmentado é a interpelação do artigo que lancei no Blog Divulgador da Palavra sobre a necessidade de aceitarmos a Cristo. Um leitor me escreveu e citando At 4.12, refutou a existência do nome Jesus e afirmou baseado nisto que Cristo não salva. Ora, o contexto do versículo são os anteriores e posteriores (contexto imediato) que ensina justamente que o único nome capaz de salvar é Jesus. Confiram Atos 4, atente para o versículo 11 e 13. Depois veja At 4.12 isolado. Esta fragmentação escrituraria é ausência de Bibliologia.
Fé sem doutrina é um perigo. Doutrina sem Fé é um perigo ainda maior. Heresia com Fé é uma bomba. Ainda na esteira do pensamento de Roger Olson: “Às vezes, o acerto doutrinário e teológico tem importado demais. Nos nossos dias, porém, parece que o pêndulo já chegou à extremidade oposta, já que muitos Cristãos sabem pouco ou nada a respeito das doutrinas cristãs ou de como e por que se desenvolveram. O Cristianismo está correndo o risco de se tornar uma religião folclórica de culto terapêutico e de sentimentos pessoais.”  (Olson, 1999)
O exemplo de inevitabilidade da teologia é a própria Bíblia. Embora não fosse nomeada como tal, as Cartas de São Paulo para as igrejas eram o cerne de um estudo teológico. Assim como as Cartas de Pedro e os Evangelhos. Precisamos afastar a idéia de que a Teologia se faz somente dentro das faculdades e seminários, é possível uma teologia do “crente comum”. Como? Nas Escolas Bíblicas Dominicais (EBD) e nos Cultos de Ensino. Mas isto tem sido coisa rara de se ver.  EBD hoje é coisa de igreja conservadora, pensam alguns equivocados.  A própria história do surgimento da EBD não é ensinada. Como ela surgiu numa Inglaterra comprometida pela ausência de assistência social e transformou a vida de milhares de crianças. Isto mesmo, nos primórdios a Escola Bíblica era talvez, o único contato de várias crianças com a Educação.  Precisamos estudar, debater e discutir teologia, até mesmo as heresias devem ser estudadas, porque elas podem contribuir para o aumento da nossa Fé em Cristo. E por favor, não atribuam a culpa ao diabo.  Quem veio para roubar, matar e destruir não é o diabo. Ele até rouba, mata e destrói. Mas a passagem Bíblica de  João 10. 7-12, nomeia os maus pastores.
“Tornou, pois, Jesus a dizer-lhes: Em verdade, em verdade vos digo que eu sou a porta das ovelhas. Todos quantos vieram antes de mim são ladrões e salteadores; mas as ovelhas não os ouviram. Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens. O ladrão não vem senão a roubar, a matar, e a destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância. Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas. Mas o mercenário, e o que não é pastor, de quem não são as ovelhas, vê vir o lobo, e deixa as ovelhas, e foge; e o lobo as arrebata e dispersa as ovelhas. Ora, o mercenário foge, porque é mercenário, e não tem cuidado das ovelhas. Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido. (João 10:7-14)
 Quando entendemos para crer, vemos nesta passagem que para o homem existe uma série de impossibilidades, a saber:
        1)      Ser salvo sem nascer de novo
        2)      Ser redimido sem o sangue de Jesus
        3)      Agradar a Deus sem ter fé
        4)      Converter-se depois da morte
        5)      Escapar ao juízo vindouro
        6)      Salvar-se de outro modo a não ser por Jesus
        7)      Crer em Jesus e, mesmo assim, perder-se

Esta transferência de culpa ao diabo e absolvição imediata (pelos padrões humanos) dos maus pastores, nada mais é, que o fruto de uma ausência teológica.

A Inevitabilidade da Teologia é um assunto que demanda mais escritos, mas por hora, fiquemos por aqui.
Graça e Paz!

Bibliografia:
Olson, R. (1999). História da Teologia Cristã. São Paulo: Vida.
Bíblia sagrada.




[1]  Servo de Deus. Congrega na Assembleia de Deus Missões Ministério São João del-Rei, na cidade de São João del-Rei/MG. Graduado em Filosofia pela UFSJ. Estudante de Teologia da EETAD.

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