terça-feira, 2 de setembro de 2014

Sobre a Plenitude dos Tempos.



Sobre a Plenitude dos Tempos.
Jonas Dias de Souza[1]
Ao lermos a carta do apóstolo Paulo aos Gálatas deparamos com a expressão “plenitude dos tempos”. “Mas vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, (...) Gálatas 4.4”.  Mas o que é afinal a plenitude dos tempos? Seria uma data no calendário de Deus? Seria um período específico na história da humanidade?
Vamos trabalhar com a questão da história da humanidade pelo simples motivo de que a mente de Deus é insondável para o homem. Portanto trabalhar uma questão de data no calendário de Deus, não passaria de pura especulação, e um afundar num terreno de areia movediça. Mesmo sabendo que as profecias contidas ao longo da Bíblia e que tratavam da vinda do messias, não tratavam de uma data específica. Mas de um tempo determinado por Deus que se constitui no ponto central de toda a história da humanidade. O ponto convergente do surgimento do Messias.
Quando falamos da história da humanidade, podemos tirar algumas inferências baseadas no estudo da mentalidade existente na época, e da cultura principalmente a helenística. Além do fato de termos uma facilidade em termos de comunicação para aquela época.  Um leitor mais atento poderá dizer que hoje as facilidades tecnológicas são mais abrangentes, contudo, naquela época (penso eu) havia mais abertura para a aceitação de uma novidade que exigiria sacrifícios, como foi o cristianismo.
A influência da filosofia grega permitiu aos homens da época uma libertação de uma cultura impregnada de paganismo, onde a religião controlava grande parte da vida do homem. Embora paradoxalmente, a cultura grega era pagã. Trocando em miúdos, podemos dizer que a cultura helenística era tão pagã que aceitar mais um Deus era normal. Só que este Deus, veio para ocupar de fato o lugar dos outros deuses.  Aliado a isto, tínhamos ainda o papel importante de Roma com suas estradas e colônias, e mentalidade de permitir aos povos conquistados que mantivessem em parte sua cultura. Exemplo disto foi a liberdade que o apóstolo Paulo encontrou para discursar no Areópago[2].
Vejamos :

“Enquanto Paulo os esperava em Atenas, revoltava-se nele o seu espírito, vendo a cidade cheia de ídolos.  Argumentava, portanto, na sinagoga com os judeus e os gregos devotos, e na praça todos os dias com os que se encontravam ali.  Ora, alguns filósofos epicureus e estóicos disputavam com ele. Uns diziam: Que quer dizer este paroleiro? E outros: Parece ser pregador de deuses estranhos; pois anunciava a boa nova de Jesus e a ressurreição.  E, tomando-o, o levaram ao Areópago, dizendo: Poderemos nós saber que nova doutrina é essa de que falas?    Pois tu nos trazes aos ouvidos coisas estranhas; portanto queremos saber o que vem a ser isto.   Ora, todos os atenienses, como também os estrangeiros que ali residiam, de nenhuma outra coisa se ocupavam senão de contar ou de ouvir a última novidade.   
Então Paulo, estando de pé no meio do Areópago, disse: Varões atenienses, em tudo vejo que sois excepcionalmente religiosos; Porque, passando eu e observando os objetos do vosso culto, encontrei também um altar em que estava escrito: AO DEUS DESCONHECIDO. Esse, pois, que vós honrais sem o conhecer, é o que vos anuncio.  O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens;  nem tampouco é servido por mãos humanas, como se necessitasse de alguma coisa; pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas;  e de um só fez todas as raças dos homens, para habitarem sobre toda a face da terra, determinando-lhes os tempos já dantes ordenados e os limites da sua habitação; para que buscassem a Deus, se porventura, tateando, o pudessem achar, o qual, todavia, não está longe de cada um de nós;  porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois dele também somos geração.   
 Sendo nós, pois, geração de Deus, não devemos pensar que a divindade seja semelhante ao ouro, ou à prata, ou à pedra esculpida pela arte e imaginação do homem.  Mas Deus, não levando em conta os tempos da ignorância, manda agora que todos os homens em todo lugar se arrependam;  porquanto determinou um dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do varão que para isso ordenou; e disso tem dado certeza a todos, ressuscitando-o dentre os mortos. Mas quando ouviram falar em ressurreição de mortos, uns escarneciam, e outros diziam: Acerca disso te ouviremos ainda outra vez.   
Assim Paulo saiu do meio deles. Todavia, alguns homens aderiram a ele, e creram, entre os quais Dionísio, o areopagita, e uma mulher por nome Dâmaris, e com eles outros. (Atos 17:16-34)[3] (Grifo nosso)

A plenitude dos tempos ocorre na Era da Dispensação, em que Deus julgou oportuna enviar seu filho ao mundo para que este resgatasse o mundo da dívida do pecado que se encontrava mediante o derramamento de seu sangue.
Como vemos na Palavra de Deus em João 3:16, movido pelo amor que não se mede em favor da humanidade ele manda seu unigênito. Não único como afirmam alguns. Mas o unigênito. Para que  aqueles que nele crerem não morram , mas alcancem a vida eterna. Esta plenitude dos tempos, é Deus se fazendo presente no tempo. Embora haja algo de escatológico para a humanidade, para Deus o tempo é um eterno presente. Ele se materializou, encarnou, para resgatar a humanidade sofredora.

Para entendermos o conflito de idéias existentes naquela disputa intelectual no tribunal ateniense, é necessário que entendamos um pouco da mentalidade dos filósofos da época.
Paulo discursava com os Epicuristas, que eram os defensores da doutrina de Epicuro.

O Dicionário de Filosofia de Abbagnano define Epicurismo como sendo:
 “Escola filosófica fundada por Epicuro de Samos no ano 306 a.C em Atenas. Suas características, que têm em comum com as demais correntes filosóficas do período alexandrino a preocupação de subordinar a investigação filosófica à exigência de garantir a tranqüilidade do espírito ao homem, são as seguintes: 1º Sensacionismo, princípio segundo o qual a sensação é o critério da verdade e do bem (este último identificado portanto,  com prazer); 2º atomismo, com que Epicuro explicava a formação das coisas por meio da união e da separação dos átomos, e o nascimento das sensações como ação dos estratos de átomos provenientes das coisas sobre os átomos da alma; 3º Semi-ateísmo, pelo qual Epicuro acreditava na existência dos deuses, que, no entanto não desempenham papel nenhum na formação e no governo do mundo” (Abbagnano, 2000)

E ao mesmo tempo, combatia as doutrinas dos estóicos.

Vejamos o verbete ESTOICISMO em Abbagnano:

“Uma das grandes escolas filosóficas do período helenista, assim chamada pelo pórtico pintado (Stoá poikíle) onde foi fundada por volta de 300 a.C, por Zenão de Cício. Os principais mestres dessa escola foram, além de Zenão, Cleante de Axo e Crisipo de Soles. Com as escolas da mesma época, epicurismo e ceticismo, o E. compartilhou a afirmação do primado da questão moral sobre as teorias e o conceito de filosofia como  vida contemplativa acima das ocupações das preocupações e das emoções da vida comum. (...) Ao lado do aristotelismo, o estoicismo foi a doutrina que maior influência exerceu na história do pensamento ocidental.” (Abbagnano, 2000)

Quando aprofundamos no estudo do estoicismo vemos que entre outras coisas possuía um conceito de Razão divina que rege este mundo e as coisas existentes, dentro de uma ordem necessária e perfeita.

Podemos crer que Deus fez a escolha perfeita para mandar para o povo grego. Sabemos que o Espírito Santo capacita os discípulos. Mas Deus utilizou um dos homens mais inteligentes (culturalmente falando) da época, e transformou-o de perseguidor a defensor do Evangelho.

A Bíblia não traz, mas podemos imaginar o debate caloroso que se seguiu entre Paulo e os filósofos defensores das correntes de pensamento helenista naquela Praça de Atenas. A sabedoria que Paulo recebeu do alto fez prevalecer o seu argumento, tanto que houve conversões naquele debate, assim como, podemos inferir que houve tantas outras conversões.

Destacamos a conversão de Dionísio, o Aeropagita. A controvérsia que gira em torno de seus textos não nos ajudará neste momento. Ficando para outro momento um estudo aprofundado sobre este convertido por Paulo.

Longe de vermos a plenitude dos tempos como matéria de discussões infindáveis, é importante ver que Deus com sua infinita sabedoria escolheu aquela época para enviar o resgate. Havia o predomínio de idéias com mais de 300 anos, com produções escritas e escolas formadas. Eis que surge um carpinteiro, com idéias revolucionárias, transformando a história individual. Acredito que a história universal é escrita a partir de nossa história individual. Daí a importância que pesa sobre cada crente em apressar a obediência ao imperativo IDE. Se Paulo não houvesse obedecido, com certeza Deus enviaria outro, mas o seu exemplo de obediência deve ser um norte para nós.

Assim como devemos nos aplicar em crescer no conhecimento intelectual. A Bíblia deve ser o nosso principal livro, mas devemos e podemos ler os escritores que se debruçam no estudo e na produção de literaturas teológicas de edificação. O apóstolo Paulo foi chamado de embusteiro, e ainda assim discursou em meio ao povo que embora aberto para as novidades defendiam sua forma de pensar de maneira inteligente.

A plenitude dos tempos não é algo que parou no calendário do tempo. Quando afirmamos que Deus tem um tempo de eterno presente, é porque Ele é onisciente, onipresente e onipotente. Em nossa vida de oração Ele vem dentro de sua plenitude, dentro de seu tempo, dentro de sua estação,não podemos é desistir e parar de orar.


Bibliografia

(s.d.). Acesso em 2 de Setembro de 2014, disponível em Dicionário on line de Português: http://www.dicio.com.br/areopago_2/
Abbagnano, N. (2000). Dicionário de Filosofia (4ª edição ed., Vol. Único). (A. Bosi, Trad.) São Paulo, Brasil: Martins Fontes.
Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. (2003). São Paulo.
biblia.com.br. (2 de Setembro de 2014). Acesso em 2 de Setembro de 2014, disponível em : http://biblia.com.br/joao-ferreira-almeida-atualizada/atos/atos-capitulo-16/






[1] Servo de Deus. Congrega na Assembleia de Deus Missões na cidade de São João Del-Rei/MG. Graduado em Filosofia pela UFSJ. Estudante de Teologia da EETAD.
[2] Significado de Areópago s.m. Antigo tribunal de Atenas (neste sentido, é usado com inicial maiúscula).
Fig. Reunião de sábios, de letrados, políticos etc.: areópago literário. Tribunal supremo de Atenas, composto de 31 membros, antigos arcontes, e encarregado do julgamento das questões criminais mais graves. Alcançou reputação de equidade e sabedoria e, por isso, areópago passou a significar, figuradamente, assembléia ou corte de justiça augusta, imparcial e soberana. (Disponível em: http://www.dicio.com.br/areopago_2/ acesso em 02/09/2014)

[3] Disponível em: http://biblia.com.br/joao-ferreira-almeida-atualizada/atos/atos-capitulo-16/ acesso 02/09/2014

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