domingo, 13 de julho de 2014

O QUE SÃO AS CIDADES DE REFÚGIO DO ANTIGO TESTAMENTO?

Cidades de Refúgio

O QUE SÃO AS CIDADES DE REFÚGIO DO ANTIGO TESTAMENTO?
Jonas Dias de Souza[1]
“Todavia, se alguém ferir a outrem com instrumento de ferro, e este morrer, é homicida; o homicida será morto.” (Números 35:16)

            Imagine dois homens trabalhando no campo. Um deles se prepara para dar um golpe com o machado em uma árvore. Ocorre que o machado se solta do cabo e atinge a fronte do companheiro. Mas não houve nenhuma intenção por parte do homem que provocou o infeliz assassinato. Imagine também uma cultura que prevê como forma de punição a máxima do “olho por olho, dente por dente”. Agora imagine uma cidade onde seus dirigentes são uma classe especial de pessoas e que conhecem a lei daquela cultura mais do que todas as outras. E que compreendem e aceitam este homicida, e ali ele encontra segurança, ficando livre de possíveis vingadores do homem que morreu. Provada a sua inocência com relação a um dolo, ele pode viver em segurança.

“Assim, aquele que entrar com o seu próximo no bosque, para cortar lenha, e, manejando com impulso o machado para cortar a árvore, o ferro saltar do cabo e atingir seu próximo, e este morrer, o tal se acolherá em uma destas cidades e viverá;” (Deuteronômio 19: 5-6)
Quando lemos o versículo anterior, vemos que
o núcleo é “aborrecia”, ou seja, a chave do homicídio deliberado é a figura da premeditação, o planejamento, a vontade explícita de fazer mal ao próximo. Os ensinamentos de Jesus nos mostrou de forma clara que a chave que quebra o mandamento “Não Matarás”,  é o ódio. Estes desejos de morte, ou desejos mórbidos com relação ao semelhante, tem sido alvo de estudos pela psicologia. Mas não é este o assunto principal das cidades refúgio. Estas visavam o crime por acidente, sem causa de premeditação ou planejamento.
            Foi pensando nisto que Deus instruiu seu povo a separar cidades para proteção deste tipo de criminosos. E mais ainda, em sua infinita bondade, colocou as cidades de forma tal, que em qualquer direção o fugitivo encontraria uma cidade destas. Estamos falando das cidades de refúgio. Cidades separadas para receber os criminosos que praticaram o ato sem a intenção.  A preocupação com a segurança do fugitivo incluía até a manutenção das boas condições que chegavam a estas cidades.

            “Preparar - te ás o caminho e os limites da tua terra que te farás possuir o SENHOR, teu Deus, dividirás em três, e isto será para que se acolha nela todo homicida.” (Deuteronômio 19:3)

                       
            O Pentateuco é a denominação dos cinco primeiros livros da Bíblia, dos quais Números é o quarto. Não é um conjunto de livros de fácil leitura. Normalmente lemos com facilidade os demais livros que formam a Bíblia, mas, os livros que cuidam de leis e recenseamentos não são para qualquer leitor. No entanto, mesmo neste conjunto (até em Números), vemos a presença de Deus de forma marcante.
            O assunto que nos leva a escrever agora são as “CIDADES REFÚGIOS”   listadas em alguns livros do Pentateuco. Temos seis cidades refúgios, cuja versão dos nomes para a língua portuguesa mostra bem o amor de Deus, a saber:
ñ  QUEDES, Santuário, Lugar Santo.
ñ  GOLÃ, Separado, Cativo
ñ  RAMOTE, Alturas
ñ  SIQUÉM, Ombro
ñ  BEZER , Forte, Fortaleza.
ñ  HEBROM. Comunhão, Aliança.

            Mas afinal para que serviam as cidades?
            Como sabemos a questão do sangue na bíblia é assunto de extrema importância. O derramamento de sangue por via criminosa era punido de forma semelhante. Contudo havia casos em que o assassinato acontecia por vias não intencionais.  O que no nosso ordenamento jurídico atual chamamos de Homicídio Culposo, ou seja, aquele em que não há intenção de matar. Por exemplo um acidente de trabalho. Nestes casos, o derramador de sangue possuía um mecanismo de proteção que eram as cidades refúgios.
            A origem das cidades está na designação de Moisés. Designação esta que ocorreu mediante a ordem de Deus, conforme vemos em Números 35. Três situavam-se ao Leste do Rio Jordão. Sendo BEZER a primeira e pertencente a tribo de Rubem. Situava-se na extremidade do Mar Morto. A segunda, para a tribo de Gade era a cidade de RAMOTE, que situava-se em Gileade, ficava nas proximidades da parte oriental do território ocupado por Israel. A terceira era Golã, que ficava no território de Manassés, mais ao norte.
            Quando os Israelitas cruzaram para o lado Oeste do rio Jordão. Foi a vez de Josué designar mais três cidades de refúgio: HEBROM ao sul do território de Judá. SIQUÉM nas montanhas de Efraim, e por fim QUEDES  no território de Naftali.
            Esta última foi conhecida mais tarde com a região da Galiléia.
            O que havia de comum nestas cidades é que todas eram Levitas, sendo HEBRON  a cidade sacerdotal. Para bem entender, devemos ler principalmente Números 35 e Josué 20. E ainda Deuteronômio 4 e 19.
            A respeito dos Levitas sabemos que, além de pertencerem a tribo de Levi, obviamente, eram separados para o serviço sacerdotal. Estas pessoas eram as ideais para a manutenção de uma justiça que exigia ouvir versões diferentes e conflitantes. A idéia de espalhar os Levitas era para que estes ensinassem as Leis para todo o povo.
            Interessante notar que as penas não eram eternas ou perpétuas. O fugitivo poderia retornar às suas terras assim que morresse o Sumo sacerdote que o abrigara. A figura do sacerdote era uma forma de marcar o tempo (o início de uma nova época) naquela cultura. E a proteção era dentro dos muros da cidade de refúgio. Atualmente, dispomos de uma cidade de refúgio que é onipresente, na pessoa de Cristo Jesus. Ele reúne todas as qualidades das seis cidades e prometeu nos levar para a Jerusalém Celestial que a cidade para a qual almejamos seguir.
            Cristo declarou esta vontade de ser o nosso refúgio por diversas vezes, uma destas vezes é encontrada em Lucas 13:34 : “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu  ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e não quisestes?”
            Encontramos um contraste entre o refúgio propiciado pelas cidades e o refúgio propiciado por Cristo Jesus. Enquanto era necessário correr para o primeiro, para o refúgio de Cristo não é necessário corrermos, pois Ele está nos oferecendo o abrigo. Quando a galinha abre as asas seus filhotes correm para debaixo para se protegerem. Por isto basta apenas aceitarmos a proteção oferecida por Cristo que com o sacrifício na Cruz, pavimentou o caminho para a cidade de refúgio-mor e eterna que a Jerusalém Celestial.
            Quando aceitamos a Cristo nós colocamo-nos debaixo de sua Glória (Shekiná). Jesus mostrou que Ele era e ainda é o arauto do reino de Deus, e como tal tem plenos poderes para nos dar refúgio.
            A idéia veterotestamentária das cidades refúgios demonstra o cuidado que Deus tem com seu povo. Cuidado tão zeloso que deu o seu filho unigênito para morrer em nosso lugar e assim podermos encontrar um refúgio eterno.






[1] Servo de Deus. Congrega na Assembleia de Deus Missões. Graduado em Filosofia pela UFSJ. Estudante de Teologia da EETAD.